A O sofrer, mesmo que allegro
M E nego molto solenemente
O Som inquieto dizer ao poente
R ETo como coluna primordial:
quinta-feira, novembro 29, 2007
sexta-feira, novembro 02, 2007
Travesseiro
As vidas deixam suas convenções pelas ruas úmidas por culpa da chuva que caiu nos últimos momentos da tarde. Nelas se vêem ainda, mesmo que não mais lá, as ansiedades, as paixões, os medos e a tênue sensação de serenidade pronta a se desfiar ao primeiro som brusco partido da gente toda renascendo. Há, antes disso, uma janela entreaberta com vozes cuidadosas em seu volume, porém, incontidas no explodir de alguma alegria feita em risos; são talvez jovens voluntariamente insones sentindo a noite como unicamente deles, mas temerosos pelo despertar de outros que então, talvez não com a mesma alegria, reclamariam sua parte na exclusividade. Nota-se em outro além uma figura senil a maldizer a solidão, e esta lhe agravando os pulmões débeis e insistentes em dar culpa a tudo mais que não seja sua imprevidência com outras vidas. Há também um travesseiro trocado por preocupações; um inútil cerrar de pálpebras; uma carência em meio à plenitude; um ócio hostil embalando tragédias; um afago noutra pele indiferente e um afago noutra pele inexistente; um arder sem combustível; um querer sem sinais de direção; uma voz íntima que toma som no silêncio e ensurdece o que com a noite a presenteia. E a tudo isso assiste essa visão flutuante que tateia como uma tímida mão em gesto de procura uma abarrotada escrivaninha sob penumbra sem contorno de objetos, descobrindo o que ela mesma pôs ali, mas que o pó que jaz volátil encobre de inesperado cinza alheio.
sexta-feira, outubro 19, 2007
Um Antigo Poema Quase Perdido
Lua encoberta em vapores
Da noite que aproxima seu braço
Pássaros que correm rasteiros
Sobre as copas verdes das árvores
Vozes de incontáveis seres
Num estrondoso fervilhar
Tarde que pede aos poucos
O ígneo horizonte à sombra.
Pomba que busca o contraste no último azul
Imaginação que não voa e respeita
A observar o seio natural
Lua que expira mansa
A respiração ofegante dos mortais
Deixa-me saber das andanças
Da nuvem que viaja em meus olhos
Dos queixumes das flores
Alimentadas pelo brilho distante
De cores brilhantes, de estrelas,
Quiçá das suas alegrias breves,
Quiçá das alegrias breves...
Ps: mal me lembro de mim aqui... 26/08/05
Da noite que aproxima seu braço
Pássaros que correm rasteiros
Sobre as copas verdes das árvores
Vozes de incontáveis seres
Num estrondoso fervilhar
Tarde que pede aos poucos
O ígneo horizonte à sombra.
Pomba que busca o contraste no último azul
Imaginação que não voa e respeita
A observar o seio natural
Lua que expira mansa
A respiração ofegante dos mortais
Deixa-me saber das andanças
Da nuvem que viaja em meus olhos
Dos queixumes das flores
Alimentadas pelo brilho distante
De cores brilhantes, de estrelas,
Quiçá das suas alegrias breves,
Quiçá das alegrias breves...
Ps: mal me lembro de mim aqui... 26/08/05
sábado, setembro 15, 2007
Ponteiro em Prata
Estrada de terra batida,
em denso vapor de prata
um céu parado
Ausência de sombra,
à beira das coisas,
encobrindo o tempo
sem sol, com luz;
com ponteiros, sem horas.
em denso vapor de prata
um céu parado
Ausência de sombra,
à beira das coisas,
encobrindo o tempo
sem sol, com luz;
com ponteiros, sem horas.
terça-feira, setembro 04, 2007
Viagem de Peer Gynt
Nossa jornada é feita de intervalos entre estações ferroviárias e a própria ferrovia correndo sinuosa ou reta, mas sempre sonolenta e contínua, por entre matas e desertos, ambos ermos lugares. Então nós, vigorosos espectadores da viagem tanto quanto pusilânimes viandantes, sentamos à beira de um assento de couro fosco em um vagão secular qualquer para assistir passar através da opaca janela as paisagens que não viveremos, e que mais adiante, a moldura de nossas pacatas e róseas tardes serão. Porém se ao deitar bagagens no frio piso da estação na qual fores descer não sentir um sopro de brisa gélido percorrer todo o espaço que enxergas, e de fora da tua visão surpreenderem-te braços enlaçados na ânsia da espera, e que se desfazem por ti, e para ti. Nessas condições, viajante, esqueça o pacato e solitário crepúsculo mencionado, que embora róseo há de ser tranquilo como nenhuma ausência jamais será.
sábado, julho 14, 2007
Contramão
Se estiveres ao sul
Dê ao norte o acenar de braços;
Pois leste e oeste convergem
Mais facilmente para
Contramão do adeus.
Dê ao norte o acenar de braços;
Pois leste e oeste convergem
Mais facilmente para
Contramão do adeus.
quarta-feira, julho 11, 2007
Fragmento da Madrugada 4
O sonho acabou com uma simples chegada, e o corpo vagou numa inconsistência de existir ou não; os princípios vividos com esperança de reconhecimento enxovalharam-se no caminho caudaloso aberto pela boiada dos carreteiros: tristes mercadores de sensações vis. A manhã nasceu com uma promessa, viveu na tarde com resquícios de concretizar e por fim, desfalecendo no desnorteio de pouca luz, agarrou-se em uma sombra que há de morrer no próximo alvorecer.
segunda-feira, março 12, 2007
Caminhante
Nunca houve pressa nos meus passos, muito embora o vento soprasse sem força, querendo apagar tua silhueta em aroma de pensamento a qual, por força de um acordo íntimo com promessa de ventura, não desvanecia. Eu era um caminhante acompanhado pelos grãos de areia sob os pés e por uma multidão de espaços vazios. O que pungia, portanto, meu peito tomado de lua e abandonado de ânimo, era adentrar as vultuosas cidades em meio ao deserto. Lá me feria a vida festiva, véu que encobre o auto-encontro; as noites sob candeias, refúgio dos relâmpagos dos erros e medos na memória do escuro; as procissões em multidões extasiadas nas ruas carentes de solidão, freio em dentes dos cavalos inquietos do inconsciente; enfim, e lamentavelmente, uma vida regrada de uma inutilidade para si própria. Essas coisas, dentre tantas outras, não foram capazes de eliminar a estrela bruxuleante, enegrecida pelos vapores da noite caída, no longe do horizonte visível da minha caminhada. Eu ansiava pelas almas exteriores aos muros, e ao sol e à lua, correntes livres
de um horizonte ao outro.
de um horizonte ao outro.
O aroma, por uma permanência mínima e inquietante que me escapa ao entendimento, jamais se perdeu quer seja entre o incenso dos templos ou então entre as torres negras de fumaça dos campos de batalha. Nada foi capaz de desfazer o inevitável, e finalmente encontrei a flor que desprende a beleza em doce fragrância.
Em meio ao dourado campo tu, humano cárcere de uma divindade perdida em seu labirinto, ceifavas de maneira tímida e solitária grãos do que é nobre e belo. Sentei, então, sobre o monte mais próximo e observei-te por incontáveis luas, a perscrutar o sentido de cada canção tua, da alvorada ao crepúsculo. Via-me com desconfiança, percebi, por estar eu sempre a olhar-te; mas ao fim, apesar do pouco tempo passado desde que me avistaste, o que de certa maneira me tornava um estranho, intimamente acenou-me de longe, chamando-me para junto do campo para em companhia das tuas mãos acariciar o trigo e em par com teus lábios amaciar a tarde celebrada em dueto.
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
Fragmento Da Madrugada 3
Me interessa tanto o que diz vossas bocas, o que vê vossos olhos e o que escreve vossos punhos, tudo isso como o interesse humilde e nunca diminuto de um pupilo para com seu mestre. São mestres e desconhecem, mestres que lecionam uma instintiva arte, portanto, desconhecida pela própria consciência. Eu como aprendiz de todos vós, humanidade maravilhosa em sua grandeza tanto quanto na sua vileza, grandiosa na imensa e positiva intenção por trás dos seus males, filhos da ignorância, tão feliz em rosto quando por detrás da plumagem visível e brilhosa incubas uma tristeza latente, eu apenas percebo vossas sutilezas e grosserias, e o que de uma há na outra, e baixo os olhos ao julgamento. Sinto que nunca hei de querer ser mestre, pois prefiro viver entre vós pequenino como agora sou.
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Fragmento Da Madrugada 2
Sou uma idéia apenas, uma idéia que têm e não podem querer ver. Cansado dos seus sonhos de mim e das suas fugas da minha realidade feita, me tornei impossível para a vida. Fui o choro das noites em que, arrependida, lamentou a amarga ilusão de ter em outros, inférteis, o que em mim viu, admirou, e acabou por ignorar ao fim. Fui o brilho amarelo das luzes acesas de uma cidade distante, a sensação de conforto vista ao longe, de imaginar-se entre casas e entes, uma alma que a ti se assemelhe. Queria poder sofrer menos com as nossas diferenças, sabendo que são consequência de modos distintos de sentir e não da recusa de reconhecer e semear sentimentos.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Longe
Sinto presente o longe na tua fala que foge,
evitando-se.
São passos tornados distâncias entre mundos,
colossais indiferenças quiçá falsas,
receio de transparecer a fragilidade
de dedicar a sinfonia de dar-se a outrem.
Há uma nota em teu peito
desconhecida por executada demasiadamente
baixa, tal como um sussuro soprado timidamente.
Um som que senti no éter, arrastando-se como seda,
contra a epiderme do meu espírito inebriado,
a querer ouví-la a pleno volume.
Ouço-te e seja como for, e apesar disso,
desconheces a verdade que há nesse fato.
evitando-se.
São passos tornados distâncias entre mundos,
colossais indiferenças quiçá falsas,
receio de transparecer a fragilidade
de dedicar a sinfonia de dar-se a outrem.
Há uma nota em teu peito
desconhecida por executada demasiadamente
baixa, tal como um sussuro soprado timidamente.
Um som que senti no éter, arrastando-se como seda,
contra a epiderme do meu espírito inebriado,
a querer ouví-la a pleno volume.
Ouço-te e seja como for, e apesar disso,
desconheces a verdade que há nesse fato.
Fragmento Da Madrugada 1
Senti o universo inteiro na superfície da pele, em um arrepio emocionado dado pelos olhos que contaram à alma sobre os confins possíveis do infinito, inimagináveis venturas e desventuras que por estranhas ao nosso imaginário tanto mais compensam viver por ora nesse miúdo grão suspenso no negro mar universal. Sempre o monte longínquo é uma esperança de mais linda paisagem do que onde em pé nos encontramos.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Versículo Último
E um morimbundo, ao divisar a frondosa árvore nuclear prestes a devorar o mundo, falou entre o último suspiro da civilização pronta a se perder em luz :"Perdoai-os Pai, eles não sabem o que querem."
terça-feira, janeiro 23, 2007
Quinta-feira
Era quinta-feira. Tudo havia tramado demais para findar na quinta-feira, justo na quinta-feira. Ainda não se tinham completado as agruras da odisséia das nossas vidas semanais, nem ao menos as duas dúzias de horas estavam perto de completarem seu ciclo, e já nesse quinto dia tremeu a imponente paineira, derramando lentamente, o rosa sobre o gramado úmido.
As vidas alheias dormem, as noites alheias dormem e os dias alheios disfarçam não estarem dormindo. Mas veja como de uma sacada a algumas quadras do mar é possível observar como até mesmo este imenso corpo de água e sal, dorme o sono dos que nele se banham. Dorme o sono dos que se refrescam, dos que hão de suicidar-se em seus braços, dos que brincam somente, e dos que sofrem com o pensamento longe de toda imensidão azul. Mas era quinta-feira, e todos dormiam na maior atividade, dormiam com o sono atento das suas vidas quotidianas, quando sob a rosa paineira dormiu a quem o sono tanto pesara, a quem o mar nunca pôde culpar por contribuir com parcela alguma do seu revolto sono, e que, com persistência, até então havia resistido. Era quinta-feira, e os deuses do sono estavam desatarefados demais para que um sequer pudesse aos seus encantos resistir.
domingo, janeiro 21, 2007
Bati em vossas portas

Bati em vossas portas quando possuía tudo quanto suas lendas desenharam em vossas almas ainda pequenas. Parei sobre o umbral de suas noites silentes, chapéu penso ao lado do corpo, e mãos a ferir as portas de suas vidas. Perdi, toque após toque, porta após porta, a credulidade em vós, a minha querida ilusão de que em vossas casas, entre suas cobertas macias, morava a mesma aflição de não conhecer as batidas lânguidas porém insitentes na entrada do lar.
Estive como vós todos, a dormir e a ignorar, seja por medo ou indiferença, esses sons que rompiam na madrugada escura. Um dia, lembro-me bem, quando o sono da noite demorou a visitar minha consciência, pude ouvir claramente como era insuportável estar desperto e ouvir diretamente o clamar ferir a alma não dormente. Sequer toquei os lençóis e minhas mãos escorregaram para a porta com uma curiosidade além da vulgar curiosidade de descobrir sem tocar, havia algo como querer, mesmo sem conhecer a natureza do chamado, estar nele para sentir-se como ele a me ver tentando descobrí-lo.
A partir daquela noite não mais retornei para o lar, segui solto pela cidade junto das poucas luzes noturnas a tocar de porta em porta o mesmo som que um dia ouvi e, igualmente, procurar a quem queira em mim se tornar.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Impossível

Queria apenas a madrugada quando
pela noite caiu em sono sabendo,
que por cansada, certamente não iria despertar.
Queria apenas, docemente, tornar doce o mar
por onde a miséria entrou infestando
a costa virgem com o salgar da dor.
Queria a doação de sua imagem alheiamente
emoldurada: ter a si mesma em outrem
com a sedosa sensação de ser eterna.
Queria, em seu sono conturbado,
ter o impossível, um elo pra esquecer-se.
Queria ser outra que sonhava,
admirada, sua vida passar em trilhos
longos através das horas de distração.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
Colina do Silêncio

Subíamos a colina com o vento nos esmagando contra o corpo denso, como de um gigante, da larga inclinação. Virei meu rosto e estava só, não havíamos, estava apenas eu ali, solitário da minha imaginação, talvez de mim. Perdi a cada um de vós em cada monte que subia, em cada vale em que submergia, em cada madrugada que desfazia o sono e remontava outro menos sonhado. Eu era estranho a cada hora, a cada movimento, e perdia-me num esquecimento feroz que me engolia de instante a instante até eu não mais me dar por isso. Eu era vivo somente por poder existir fora de ontem. E hoje, quando me encontro em meio aos braços da cidade e ouço das vossas bocas conversas tão soltas e intimamente pretéritas, só me vejo calado, a de quando em vez lançar sobre vossos ouvidos palavras abstratas como de um espírito estrangeiro. E por esta razão me quiseram longe, eu soube disso, e fui ser estranho de mim e do mundo na terra do meu silêncio.
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Fruto Sem Época

Tu que brincas aí embaixo sobre o tapete largo das emoções, julgando ser gotas do céu o salgado líquido depositado em tuas frágeis costas, nuas aos íntimos olhos do teu espírito, ágeis quando te pões taciturno, e tristes, e chorosos também o são nesta hora; ouves minha criança que sou, inalterável na discordância do pecado maior de ignorar o pequeno sábio ingênuo que eras, e incapaz de manter seu reino erguido sobre o entulho diverso e prazeroso, somente quando te apraz distrações de si.
Tu que és o fruto maturado em cor e nunca em polpa que me percebo, te colherás a vida, em seu cesto vasto de vime trançado num emaranhado aparentemente sem sentido, ainda por dentro sem a natureza ter te feito completo, mas tua casca, infeliz limitação dos frutos, não mais te suportarás defender contra as investidas naturais das intempéries, lançando-te, por fim, a vida ao fundo escuro da cesta. Então esta camponesa, de olhar puro e tranquilo, muito embora perturbador, te levarás pela noite à mesa posta e julgará teu aroma, e dele tendo a impressão positiva de um bom fruto maduro te comerás lentamente.
Porém, chegando ao centro de tuas carnes sentirá teu verdor. Ao fim, lançar-te-á mordida ao chão do pátio deste universo sabendo que de tua semente vossa própria alma renascerá. Mas uma coisa quisera eu ter a oportunidade de para a vida dizer: a época para minha colheita nunca antes veio sobre este vasto campo.
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