terça-feira, janeiro 23, 2007

Quinta-feira




Era quinta-feira. Tudo havia tramado demais para findar na quinta-feira, justo na quinta-feira. Ainda não se tinham completado as agruras da odisséia das nossas vidas semanais, nem ao menos as duas dúzias de horas estavam perto de completarem seu ciclo, e já nesse quinto dia tremeu a imponente paineira, derramando lentamente, o rosa sobre o gramado úmido.
As vidas alheias dormem, as noites alheias dormem e os dias alheios disfarçam não estarem dormindo. Mas veja como de uma sacada a algumas quadras do mar é possível observar como até mesmo este imenso corpo de água e sal, dorme o sono dos que nele se banham. Dorme o sono dos que se refrescam, dos que hão de suicidar-se em seus braços, dos que brincam somente, e dos que sofrem com o pensamento longe de toda imensidão azul. Mas era quinta-feira, e todos dormiam na maior atividade, dormiam com o sono atento das suas vidas quotidianas, quando sob a rosa paineira dormiu a quem o sono tanto pesara, a quem o mar nunca pôde culpar por contribuir com parcela alguma do seu revolto sono, e que, com persistência, até então havia resistido. Era quinta-feira, e os deuses do sono estavam desatarefados demais para que um sequer pudesse aos seus encantos resistir.

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