
Bati em vossas portas quando possuía tudo quanto suas lendas desenharam em vossas almas ainda pequenas. Parei sobre o umbral de suas noites silentes, chapéu penso ao lado do corpo, e mãos a ferir as portas de suas vidas. Perdi, toque após toque, porta após porta, a credulidade em vós, a minha querida ilusão de que em vossas casas, entre suas cobertas macias, morava a mesma aflição de não conhecer as batidas lânguidas porém insitentes na entrada do lar.
Estive como vós todos, a dormir e a ignorar, seja por medo ou indiferença, esses sons que rompiam na madrugada escura. Um dia, lembro-me bem, quando o sono da noite demorou a visitar minha consciência, pude ouvir claramente como era insuportável estar desperto e ouvir diretamente o clamar ferir a alma não dormente. Sequer toquei os lençóis e minhas mãos escorregaram para a porta com uma curiosidade além da vulgar curiosidade de descobrir sem tocar, havia algo como querer, mesmo sem conhecer a natureza do chamado, estar nele para sentir-se como ele a me ver tentando descobrí-lo.
A partir daquela noite não mais retornei para o lar, segui solto pela cidade junto das poucas luzes noturnas a tocar de porta em porta o mesmo som que um dia ouvi e, igualmente, procurar a quem queira em mim se tornar.
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