segunda-feira, março 12, 2007

Caminhante

Nunca houve pressa nos meus passos, muito embora o vento soprasse sem força, querendo apagar tua silhueta em aroma de pensamento a qual, por força de um acordo íntimo com promessa de ventura, não desvanecia. Eu era um caminhante acompanhado pelos grãos de areia sob os pés e por uma multidão de espaços vazios. O que pungia, portanto, meu peito tomado de lua e abandonado de ânimo, era adentrar as vultuosas cidades em meio ao deserto. Lá me feria a vida festiva, véu que encobre o auto-encontro; as noites sob candeias, refúgio dos relâmpagos dos erros e medos na memória do escuro; as procissões em multidões extasiadas nas ruas carentes de solidão, freio em dentes dos cavalos inquietos do inconsciente; enfim, e lamentavelmente, uma vida regrada de uma inutilidade para si própria. Essas coisas, dentre tantas outras, não foram capazes de eliminar a estrela bruxuleante, enegrecida pelos vapores da noite caída, no longe do horizonte visível da minha caminhada. Eu ansiava pelas almas exteriores aos muros, e ao sol e à lua, correntes livres
de um horizonte ao outro.
O aroma, por uma permanência mínima e inquietante que me escapa ao entendimento, jamais se perdeu quer seja entre o incenso dos templos ou então entre as torres negras de fumaça dos campos de batalha. Nada foi capaz de desfazer o inevitável, e finalmente encontrei a flor que desprende a beleza em doce fragrância.
Em meio ao dourado campo tu, humano cárcere de uma divindade perdida em seu labirinto, ceifavas de maneira tímida e solitária grãos do que é nobre e belo. Sentei, então, sobre o monte mais próximo e observei-te por incontáveis luas, a perscrutar o sentido de cada canção tua, da alvorada ao crepúsculo. Via-me com desconfiança, percebi, por estar eu sempre a olhar-te; mas ao fim, apesar do pouco tempo passado desde que me avistaste, o que de certa maneira me tornava um estranho, intimamente acenou-me de longe, chamando-me para junto do campo para em companhia das tuas mãos acariciar o trigo e em par com teus lábios amaciar a tarde celebrada em dueto.

2 comentários:

Cibele Cyber disse...

Hum, gostei bastante. Tu tá saindo daquela forma que tu tinhas, tá escrevendo mais livremente, e, não sei dizer bem, mas me pareceu mais maduro, mais reflexivo.

Anônimo disse...

Lindo Ju!!! Adoro ler o q vc escreve, fico eu aqui, viajando nas tuas palavras, enquanto a mente vai encenando a história.
Ñ perca seu estilo, nem sua personalidade, pois são estes q fazem os seus poemas (e vc) serem únicos e especiais...
B-jão Ju!!!! té + v!!!