domingo, fevereiro 26, 2006

Nas brasas noturnas do céu
encadeiavam-se emoções mil
provindas das minhas vistas
carregadas de tristeza e dor...

O amanhecer da batalha

Pobre chama que queima
A flecha que a conduzirá,
Consome-se, e cresce,
Ávida pelo arco que atira.

E o dia que rasga
Qual nau ligeira
Da noite as serena vagas,
Arde igualmente olhos sonolentos
Temerosos da batalha.

Irmãos que não se odeiam,
Não se amam porém,
De lado e outro futuro
Não espreitam, após
Terem espadas em punho
Tempo se detém,a vida falha.

Marcha segue a malha
Urdida por gênios cobiçosos,
Vidas e esforços
Erguem-se para seu têrmo.

Ah, fim, começas agora,
E meditações a ti
Não fizeram os que
Vão ao teu encontro.

Reclama, pois, o pensamento
Que cavalga a agonia,
E que falta aos pobres
Que vão ter com tua filha
Sem reconhecer-te como nobre.

Bestas circulam o céu,
Anjos lamentam nele,
Véu que será descoberto
Da tua face morte perene.

O anoitecer da batalha


Quão sangrenta foste
Desgraçada batalha vil.
Consumiste, do rio,
A argenta face serena;
E da areia, o claro brilho.

E transformaste tudo
Que vejo, numa região
Donde nem o pão desejo.
Eis que o tenho visto
De igual modo maculado.

A tinta, que tinge a vida,
Por entre os sulcos
Da terra seca finge:
Irriga o solo quente,
Cobre a fria correnteza.

E o meu peito
Já tão banhado,
Continua sedento;
Cansado e negro.
Tão desatinado quanto,
O colidir de água e rocha.

E me ajoelho à margem,
No último ato profano:
Deito a face ao rio,
Na tentativa de acordar;
E livrar dos olhos o rubro.

Contudo, jorra a fonte,
Rio acima em prantos,
E me mancha a vista
Quem a vida retive.

Desembainho a lâmina da lua,
Contemplo nela, a noite que dorme;
Já o meu sol se encontra no poente,
O crepúsculo é a última hora que me resta...
A última fresta por onde vejo.

Sobrevenha a noite,
Maturada por minhas mãos;
Liberte-se em meu peito.
Percorra, pois, a fenda aberta
Por minha espada aguçada.

Já me tens rio,
Tão revolto que eras...
Torna-te agora tranquilo,
Por ter-me junto de ti,
Pois corro contigo ao mar
Tendo acima o céu estrelado...
Está vindo a grande madrugada
Tranzendo consigo os tempos que faltam
Os aprendizados e desejos inexistentes, as calmas
e as horas tempestivas.
Chegará também a lua em gente
Em seu passo calmo e contínuo
Tão resplandecente mas ainda entre as colinas...
Não! por detrás delas.
E eu tão na noite, cercado do sono
Que embala a mente ao escuro;
Eu tão no escuro, imaginando, e com vontade
De a lua ver mais perto.
Eu que nem a vi como agora sou, eu que
Na madrugada esta me vi nascendo, eu que
Sou a flor do fruto que já morreu, eu que
Sou apenas algo desconhecido.

domingo, fevereiro 12, 2006


Viverei meu esplendor com a lua a meio céu
enquanto as coisas todas
estiverem aguadas de prata;
para logo depois, quando as sombras apontando
para o norte estiverem, eu sofrer a dor do dia,
a morte dos sonhos no fio dos primeiros raios...
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sábado, fevereiro 11, 2006


Não enganas assim facilmente
Saindo de ti para ver o mundo
Ao meu coração silente
Que observa-te, mudo.

Por ele viajar em tuas veias
Como junto ao teu sangue vivo,
Rompendo tua serenidade,
Instigando teu pensar oculto.

Tal seja em verdade
Teu anseio uma singela cena,
Não obstante faz-se mosaico,
Gera intricados trejeitos,
Retalhos,
Por temer tremer
Diante de possível ventura.

E saberei ser tu como nunca
Consiguistes querer ser,
No momento desconhecido,
Teu suspiro preso
Ao almejo contido.

Estilhaços, cortantes reminiscências,
Veja ao mar, espelho dos céus,
A paciência das vagas
A restaurar a serenitude,
Do que fora revolta insistência
De voltar ao etéreo.

Outra Gênese

Antes eram dois azuis, nos pólos do horizonte
A cobrir a mortalidade e a infinitude
Perdidas, centelhas vagavam ingênuas
Na magnitudade da ciência suprema

E aspergiu o céu sobre as cinzas
A subtração das sua esterilidade
Confundindo o mar pouco anil
Que iniciada a revolução, agitava

Trova de vozes estranhas
Firmavam com força o repuxo
Insultos a antigas, idas façanhas
Semeavam aos outros novo culto:

"Cárcere, cárcere! é idéia patriarcal
Vamo-nos ao sal, e sejamos mártires
Partes, partes! que venham a esperar voltar
Que seja então, gerada a arte de retornar"

Quiçá renovaram-se as entranhas de outrora!
Mesmo sob o fio da águia que as devora
E ao céu que demora as vistas desta escurecer
Pois fora imensa plenitude que nalguns inda morava

Nasceu, sim! da senil desconhecida do tempo
Um miúdo e malfadado rebento que gemeu a vinda
Brilhando olhos infelizes e sedentos
Na fria baía do porto dos ventos

Era só, nos ermos vastos espaços
entre colossais e negros planaltos
abissais berços cravados pra outros
colossos vazios que inda repousavam

E romperam enfim, o fosco casulo
Escalaram o muro por sobre o marfim
Da boca de ouro da tarde e do fim
E foi começo, o que outrora era termo

Mares! invocam-te as vagas livres
tementes de inúmeras eras,
donzelas de tristes vidas,
que se entregam aos teus furores.
Mas eu, sim...este eu,
acena apenas uma melancolia no olhar
e imola somente o agito do peito
respeitando teus maiores excessos.
Não te quero a tragar os meus dias
nem as trevas que os precedem;
quero apenas tua força,
a força calma que engole o céu
no fim da vista marejada...

terça-feira, fevereiro 07, 2006



Logo, cravada nas brumas geladas noturnas
Vaga taciturna, vossa senil lâmpada.
Alumiando a auréola de almas vagas
que se enlaçam sob as vistas da madrugada
como o beijo de uma estrela nos olhos da amada.

E como o vento, que fala entre as folhas
na noite sem vozes de outros,
Murmuro entre os lábios palavras que irrompem
de tuas vistas que miram o raiar.

Veja a estrela do dia como esfrio tua alegria,
apenas com resquícios da lembraça, que não termina.
E afogo-te, neste mar de ânsias entre os vales do meu peito
para que enfim chegue a madrugada
corando a face da minha amada com o argênteo ensejo.