quarta-feira, janeiro 03, 2007

Fruto Sem Época




Tu que brincas aí embaixo sobre o tapete largo das emoções, julgando ser gotas do céu o salgado líquido depositado em tuas frágeis costas, nuas aos íntimos olhos do teu espírito, ágeis quando te pões taciturno, e tristes, e chorosos também o são nesta hora; ouves minha criança que sou, inalterável na discordância do pecado maior de ignorar o pequeno sábio ingênuo que eras, e incapaz de manter seu reino erguido sobre o entulho diverso e prazeroso, somente quando te apraz distrações de si.
Tu que és o fruto maturado em cor e nunca em polpa que me percebo, te colherás a vida, em seu cesto vasto de vime trançado num emaranhado aparentemente sem sentido, ainda por dentro sem a natureza ter te feito completo, mas tua casca, infeliz limitação dos frutos, não mais te suportarás defender contra as investidas naturais das intempéries, lançando-te, por fim, a vida ao fundo escuro da cesta. Então esta camponesa, de olhar puro e tranquilo, muito embora perturbador, te levarás pela noite à mesa posta e julgará teu aroma, e dele tendo a impressão positiva de um bom fruto maduro te comerás lentamente.
Porém, chegando ao centro de tuas carnes sentirá teu verdor. Ao fim, lançar-te-á mordida ao chão do pátio deste universo sabendo que de tua semente vossa própria alma renascerá. Mas uma coisa quisera eu ter a oportunidade de para a vida dizer: a época para minha colheita nunca antes veio sobre este vasto campo.

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