terça-feira, janeiro 23, 2007

Quinta-feira




Era quinta-feira. Tudo havia tramado demais para findar na quinta-feira, justo na quinta-feira. Ainda não se tinham completado as agruras da odisséia das nossas vidas semanais, nem ao menos as duas dúzias de horas estavam perto de completarem seu ciclo, e já nesse quinto dia tremeu a imponente paineira, derramando lentamente, o rosa sobre o gramado úmido.
As vidas alheias dormem, as noites alheias dormem e os dias alheios disfarçam não estarem dormindo. Mas veja como de uma sacada a algumas quadras do mar é possível observar como até mesmo este imenso corpo de água e sal, dorme o sono dos que nele se banham. Dorme o sono dos que se refrescam, dos que hão de suicidar-se em seus braços, dos que brincam somente, e dos que sofrem com o pensamento longe de toda imensidão azul. Mas era quinta-feira, e todos dormiam na maior atividade, dormiam com o sono atento das suas vidas quotidianas, quando sob a rosa paineira dormiu a quem o sono tanto pesara, a quem o mar nunca pôde culpar por contribuir com parcela alguma do seu revolto sono, e que, com persistência, até então havia resistido. Era quinta-feira, e os deuses do sono estavam desatarefados demais para que um sequer pudesse aos seus encantos resistir.

domingo, janeiro 21, 2007

Bati em vossas portas


Bati em vossas portas quando possuía tudo quanto suas lendas desenharam em vossas almas ainda pequenas. Parei sobre o umbral de suas noites silentes, chapéu penso ao lado do corpo, e mãos a ferir as portas de suas vidas. Perdi, toque após toque, porta após porta, a credulidade em vós, a minha querida ilusão de que em vossas casas, entre suas cobertas macias, morava a mesma aflição de não conhecer as batidas lânguidas porém insitentes na entrada do lar.
Estive como vós todos, a dormir e a ignorar, seja por medo ou indiferença, esses sons que rompiam na madrugada escura. Um dia, lembro-me bem, quando o sono da noite demorou a visitar minha consciência, pude ouvir claramente como era insuportável estar desperto e ouvir diretamente o clamar ferir a alma não dormente. Sequer toquei os lençóis e minhas mãos escorregaram para a porta com uma curiosidade além da vulgar curiosidade de descobrir sem tocar, havia algo como querer, mesmo sem conhecer a natureza do chamado, estar nele para sentir-se como ele a me ver tentando descobrí-lo.
A partir daquela noite não mais retornei para o lar, segui solto pela cidade junto das poucas luzes noturnas a tocar de porta em porta o mesmo som que um dia ouvi e, igualmente, procurar a quem queira em mim se tornar.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Impossível


Queria apenas a madrugada quando
pela noite caiu em sono sabendo,
que por cansada, certamente não iria despertar.
Queria apenas, docemente, tornar doce o mar
por onde a miséria entrou infestando
a costa virgem com o salgar da dor.
Queria a doação de sua imagem alheiamente
emoldurada: ter a si mesma em outrem
com a sedosa sensação de ser eterna.
Queria, em seu sono conturbado,
ter o impossível, um elo pra esquecer-se.
Queria ser outra que sonhava,
admirada, sua vida passar em trilhos
longos através das horas de distração.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Colina do Silêncio




Subíamos a colina com o vento nos esmagando contra o corpo denso, como de um gigante, da larga inclinação. Virei meu rosto e estava só, não havíamos, estava apenas eu ali, solitário da minha imaginação, talvez de mim. Perdi a cada um de vós em cada monte que subia, em cada vale em que submergia, em cada madrugada que desfazia o sono e remontava outro menos sonhado. Eu era estranho a cada hora, a cada movimento, e perdia-me num esquecimento feroz que me engolia de instante a instante até eu não mais me dar por isso. Eu era vivo somente por poder existir fora de ontem. E hoje, quando me encontro em meio aos braços da cidade e ouço das vossas bocas conversas tão soltas e intimamente pretéritas, só me vejo calado, a de quando em vez lançar sobre vossos ouvidos palavras abstratas como de um espírito estrangeiro. E por esta razão me quiseram longe, eu soube disso, e fui ser estranho de mim e do mundo na terra do meu silêncio.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Fruto Sem Época




Tu que brincas aí embaixo sobre o tapete largo das emoções, julgando ser gotas do céu o salgado líquido depositado em tuas frágeis costas, nuas aos íntimos olhos do teu espírito, ágeis quando te pões taciturno, e tristes, e chorosos também o são nesta hora; ouves minha criança que sou, inalterável na discordância do pecado maior de ignorar o pequeno sábio ingênuo que eras, e incapaz de manter seu reino erguido sobre o entulho diverso e prazeroso, somente quando te apraz distrações de si.
Tu que és o fruto maturado em cor e nunca em polpa que me percebo, te colherás a vida, em seu cesto vasto de vime trançado num emaranhado aparentemente sem sentido, ainda por dentro sem a natureza ter te feito completo, mas tua casca, infeliz limitação dos frutos, não mais te suportarás defender contra as investidas naturais das intempéries, lançando-te, por fim, a vida ao fundo escuro da cesta. Então esta camponesa, de olhar puro e tranquilo, muito embora perturbador, te levarás pela noite à mesa posta e julgará teu aroma, e dele tendo a impressão positiva de um bom fruto maduro te comerás lentamente.
Porém, chegando ao centro de tuas carnes sentirá teu verdor. Ao fim, lançar-te-á mordida ao chão do pátio deste universo sabendo que de tua semente vossa própria alma renascerá. Mas uma coisa quisera eu ter a oportunidade de para a vida dizer: a época para minha colheita nunca antes veio sobre este vasto campo.