A O sofrer, mesmo que allegro
M E nego molto solenemente
O Som inquieto dizer ao poente
R ETo como coluna primordial:
quinta-feira, novembro 29, 2007
sexta-feira, novembro 02, 2007
Travesseiro
As vidas deixam suas convenções pelas ruas úmidas por culpa da chuva que caiu nos últimos momentos da tarde. Nelas se vêem ainda, mesmo que não mais lá, as ansiedades, as paixões, os medos e a tênue sensação de serenidade pronta a se desfiar ao primeiro som brusco partido da gente toda renascendo. Há, antes disso, uma janela entreaberta com vozes cuidadosas em seu volume, porém, incontidas no explodir de alguma alegria feita em risos; são talvez jovens voluntariamente insones sentindo a noite como unicamente deles, mas temerosos pelo despertar de outros que então, talvez não com a mesma alegria, reclamariam sua parte na exclusividade. Nota-se em outro além uma figura senil a maldizer a solidão, e esta lhe agravando os pulmões débeis e insistentes em dar culpa a tudo mais que não seja sua imprevidência com outras vidas. Há também um travesseiro trocado por preocupações; um inútil cerrar de pálpebras; uma carência em meio à plenitude; um ócio hostil embalando tragédias; um afago noutra pele indiferente e um afago noutra pele inexistente; um arder sem combustível; um querer sem sinais de direção; uma voz íntima que toma som no silêncio e ensurdece o que com a noite a presenteia. E a tudo isso assiste essa visão flutuante que tateia como uma tímida mão em gesto de procura uma abarrotada escrivaninha sob penumbra sem contorno de objetos, descobrindo o que ela mesma pôs ali, mas que o pó que jaz volátil encobre de inesperado cinza alheio.
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