Cheio, que quase transborda, ou melhor, que está na borda, que no limite esgota.
Ela, não raro, deixa cheio, e que estranho é o fato de não deixar da borda a transa esgotar.
A transa goza mesmo a conversa calma, um gozo tão venturoso que não há melhor gemido que o incentive, que o mudo olhar no olho.
O copo é corpo, transparante tal qual não é o rosto, contudo diz num gesto que a mão repete, algo que não se sabe, e que no entanto se precede, e que tanto faz adorar.
Que conforto cerca toda essa majestade tímida, todo o gosto do seu manto de pele é exato como a saliva da pêra, a perfeita fruta de um paraíso que é real.
sábado, setembro 22, 2012
domingo, agosto 12, 2012
Há pássaros cantando desde a madrugada, talvez o desespero pela chegada da primavera ou, então, o destempero do inverno corrente. Essas notas todas são para quem? Não escutam que os carros lhes abafam os brados agudos ?
Eu estou aqui inerte sobre um bloco de espuma, esfarrapado em um escaninho de concreto.
Canto em coro com estes miúdos organismos que voam vagabundos a selvagem persistência de um querer que cobre o reconhecimento dele mesmo.
Eu grito, quero e digo o que há em mim. Deixo que saibas exatamente o que sinto emaranhar aqui no peito de sabiá. Canto mesmo com medo de ser enfadonho para ti, mas sabendo que, se talvez uma tormenta me abater em pleno curso do vôo, e eu venha a sucumbir, terás ideia do valor que tinhas para mim.
Se estou voando, você céu, é a prioridade de toda minha constituição.
Eu estou aqui inerte sobre um bloco de espuma, esfarrapado em um escaninho de concreto.
Canto em coro com estes miúdos organismos que voam vagabundos a selvagem persistência de um querer que cobre o reconhecimento dele mesmo.
Eu grito, quero e digo o que há em mim. Deixo que saibas exatamente o que sinto emaranhar aqui no peito de sabiá. Canto mesmo com medo de ser enfadonho para ti, mas sabendo que, se talvez uma tormenta me abater em pleno curso do vôo, e eu venha a sucumbir, terás ideia do valor que tinhas para mim.
Se estou voando, você céu, é a prioridade de toda minha constituição.
segunda-feira, julho 02, 2012
Minha Cidade é Uma Mulher
Entro no ônibus e deixo que este conduza meu corpo, entro na minha alma e deixo que ela conduza minha sorte.
Eu posso ver nos teus olhos de cidade o córrego de luzes vermelhas que se vão avenida adentro. As ruas são muitas e não há retorno possível.
Eu percebo, eu tenho que perceber tudo. O que me leva a ser a criança com barba de Saturno não sei, e quiçá jamais saberei. Em mim a incapacidade de relatar se torna maior na mesma proporção do quanto consigo captar.
Tenho dificuldades em fechar portas; tenho fobia de pessoas que passam; tenho um código sobre mim, e o desconheço; tenho paixão e não sei apaixonar.
Sobre mim não há palavras, não sofrerão por mim. Não há imagens da minha alegria e tampouco da tristeza. Quando chegar o tempo talvez exista lembrança de que eu caminhei e morei dentro dos teus olhos de cidade.
Eu vi tua pele tenra com pequenos retalhos de sol matutino; senti tuas festas e dissabores muito mais do que pensas.
Juro que serei breve, só me deram este meu corpo pra viver-te e ele não pode durar tanto quanto seria necessário pra ser em você.
Me vencerei, ao final, mas não serei visto...
Eu posso ver nos teus olhos de cidade o córrego de luzes vermelhas que se vão avenida adentro. As ruas são muitas e não há retorno possível.
Eu percebo, eu tenho que perceber tudo. O que me leva a ser a criança com barba de Saturno não sei, e quiçá jamais saberei. Em mim a incapacidade de relatar se torna maior na mesma proporção do quanto consigo captar.
Tenho dificuldades em fechar portas; tenho fobia de pessoas que passam; tenho um código sobre mim, e o desconheço; tenho paixão e não sei apaixonar.
Sobre mim não há palavras, não sofrerão por mim. Não há imagens da minha alegria e tampouco da tristeza. Quando chegar o tempo talvez exista lembrança de que eu caminhei e morei dentro dos teus olhos de cidade.
Eu vi tua pele tenra com pequenos retalhos de sol matutino; senti tuas festas e dissabores muito mais do que pensas.
Juro que serei breve, só me deram este meu corpo pra viver-te e ele não pode durar tanto quanto seria necessário pra ser em você.
Me vencerei, ao final, mas não serei visto...
sexta-feira, maio 25, 2012
Evangelho do Desassossego II
"A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova."
Ele foi. Construiu-se de tal maneira a não temer o que se repete, o que parece consigo mesmo no passado e no porvir. Era miúdo seu laboratório, tinha o espaço que guarda os pulmões e coração.
De quando em vez batia-lhe o sono e pensava ser homem. Sonhava labores, surpreendia-lhe o ódio, desejava glórias, acreditava em filosofias e doutrinas. Porém nada disso se sustentava, pois ele repetia baixinho a frase que lhe muda o corpo no instante em que a sente...
"-Ele me aponta todas as cores que há
nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas
quando a gente as tem na mão e olha devagar para
elas."
Ele foi. Construiu-se de tal maneira a não temer o que se repete, o que parece consigo mesmo no passado e no porvir. Era miúdo seu laboratório, tinha o espaço que guarda os pulmões e coração.
De quando em vez batia-lhe o sono e pensava ser homem. Sonhava labores, surpreendia-lhe o ódio, desejava glórias, acreditava em filosofias e doutrinas. Porém nada disso se sustentava, pois ele repetia baixinho a frase que lhe muda o corpo no instante em que a sente...
"-Ele me aponta todas as cores que há
nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas
quando a gente as tem na mão e olha devagar para
elas."
sábado, maio 19, 2012
sábado, maio 12, 2012
Crematório
Só pedi que me poupassem os livros,
Que houvesse uma caixa para lhes dar descanso
Eu não seria louco de dar a eles o que pra mim pedi
As chamas devorando minhas páginas.
Que houvesse uma caixa para lhes dar descanso
Eu não seria louco de dar a eles o que pra mim pedi
As chamas devorando minhas páginas.
Noto que me assemelho a um cálice inexpressivo e palermo, sem o vinho que embriaga, o qual não é parte minha. Talvez meu hábito de calar os esforços para se alcançar as coisas me corroa. Penso que o desvelar a peça em construção tira-lhe o valor, pois o labor despendido só interessa ao construtor e sua paixão pela obra que ergue. Eu calo meus sacrifícios. Acaso há algum mérito para quem constrói calado ?
A paixão espreme meus órgãos contra as paredes dos meus ossos e pele. Há uma explosão interna que permanece sempre o que é: uma explosão que desafia seu próprio significado e permanece ali, sem recolher sua expansão.
A música feria meus ouvidos fracos, e cada crescendo era o impacto de mim contra toda a cidade que corria veloz sob as rodas do coletivo. Eu podia varrer as ruas, parques e prédios, pelos quais passava, com o potencial atômico que havia em mim....
domingo, abril 22, 2012
Kentaur II
Centauro foi
E quase não volta
O tempo se comprimiu
Na traseira de um quatro portas.
A família em passeio gritava
Preocupada
Tudo bem, moço?
Mas moço já não era
A morte lhe roçara
######
Obs: Baseado em fatos reais de uma pedalada desta manhã.
E quase não volta
O tempo se comprimiu
Na traseira de um quatro portas.
A família em passeio gritava
Preocupada
Tudo bem, moço?
Mas moço já não era
A morte lhe roçara
######
Obs: Baseado em fatos reais de uma pedalada desta manhã.
quinta-feira, março 15, 2012
Me é deveras interessante a vida alheia que me espanta ouvir dizer do tédio. Se o sinto, me vejo só. Neste caso sei que tanto mais deveria espantar-me, sabendo que, mais atento, hei de encontrar outros em mim. Se caminho ao dever há tudo lá, e não tendo eu dores imediatas, posso ver mais. Vejo a mulher que diariamente atravessa a rua, no mesmo horário, e parece um segundo de tão precisa em seus passos. O cão da lavanderia que me faz sorrir por parecer bobo demais em sua felicidade exagerada. A senhora da condução que, com olhar impossível de disfarçar, se escandaliza das minhas calças curtas. O grupo de colegas que estão sempre a conversar com as mesmas reações. A empolgação da moça que se contém para não explodir na felicidade do seu novo emprego na revenda de peças.
São todos meus, cada um me pertence enquanto personagem da história que meus olhos escrevem. Eles não sabem de mim, sou o figurante de um livro - minha imagem é como que invisível para todos, em virtude do vício de me ver sem querer. Não podem saber, não devem nem suspeitar que enxerto em suas vidas a graça que terá para minha diversão particular.
São meus profetas, me dizem e mostram da vida com a pele queimada, com as sacolas de pimentões malcheirosos, com o olhar de desprezo, com o de arrogância, com a voz agradecida, com a voz quase morta. Posso ver suas vidas pregressas em cada expressão e gesto. Quero que me contem mais, me ensinem.
Tanto mais me interessa o cotidiano, o desafio de ver onde sou cego, e ter sempre a dolorida sensação do sol forçando a contração da pupila após um longo jejum de claridade.
Nada falo, mas se por ser grande e íntimo demais para guardar eu porventura torne verbo, mostra-se o descrédito vindo de outrem, e torno-me nada, choro para dentro por detrás de um sorriso.
Me conhecer é enfadonho, e por essa maldição escrita por mim, me é impossível sentir o mesmo por alguém que eu conheça, mesmo que por décadas.
São todos meus, cada um me pertence enquanto personagem da história que meus olhos escrevem. Eles não sabem de mim, sou o figurante de um livro - minha imagem é como que invisível para todos, em virtude do vício de me ver sem querer. Não podem saber, não devem nem suspeitar que enxerto em suas vidas a graça que terá para minha diversão particular.
São meus profetas, me dizem e mostram da vida com a pele queimada, com as sacolas de pimentões malcheirosos, com o olhar de desprezo, com o de arrogância, com a voz agradecida, com a voz quase morta. Posso ver suas vidas pregressas em cada expressão e gesto. Quero que me contem mais, me ensinem.
Tanto mais me interessa o cotidiano, o desafio de ver onde sou cego, e ter sempre a dolorida sensação do sol forçando a contração da pupila após um longo jejum de claridade.
Nada falo, mas se por ser grande e íntimo demais para guardar eu porventura torne verbo, mostra-se o descrédito vindo de outrem, e torno-me nada, choro para dentro por detrás de um sorriso.
Me conhecer é enfadonho, e por essa maldição escrita por mim, me é impossível sentir o mesmo por alguém que eu conheça, mesmo que por décadas.
sábado, fevereiro 18, 2012
Era Minha
Pensei que o mundo era uma solidão somente minha, mas vinha errado o que davam e eu o que tinha.
Constru-ido
Não creiam na possibilidade do incrível, ela se arremete ao suicídio no instante mesmo em que se constrói como real, por culpa de adagas oferecidas.
Quem tomaria para si um objetivo que lhe escapasse inteiramente tanto em término quanto em caminho ? Há de se dizer que seria uma eleição de objetivo por culpa de um impulso inicial desconhecido e que, fosse no passado aplicada a visão obtida no curso desta empresa, seria possível, para o então infante, captar o motivo outrora ignorado. Nos anos que correriam se perderia entre centenas de razões duvidosas o que o mancebo apenas consentiria para si com a força leviana da inocência, e que seria o vórtice donde surgiria toda sua autoconstrução estranha para o porvir.
Recairia sobre tal criatura a reta maldição dos versos de Natália Correia, e então nasceria "um vestíbulo do impossível, um lápis de armazenado espanto".
Quem tomaria para si um objetivo que lhe escapasse inteiramente tanto em término quanto em caminho ? Há de se dizer que seria uma eleição de objetivo por culpa de um impulso inicial desconhecido e que, fosse no passado aplicada a visão obtida no curso desta empresa, seria possível, para o então infante, captar o motivo outrora ignorado. Nos anos que correriam se perderia entre centenas de razões duvidosas o que o mancebo apenas consentiria para si com a força leviana da inocência, e que seria o vórtice donde surgiria toda sua autoconstrução estranha para o porvir.
Recairia sobre tal criatura a reta maldição dos versos de Natália Correia, e então nasceria "um vestíbulo do impossível, um lápis de armazenado espanto".
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
Escaldante a tarde que cai pela cidade e, no entanto, por culpa de um ânimo realmente fraco que me sustenta há tempos, quando me ponho a ler ou escrever, me obrigo a lançar mão do artifício da cafeína quente e amarga, de maneira que o tal gosto que acompanha o agradável aroma com sensação de conforto, me desperte por força de sua natureza mais direta e nua.
Me agradam amargos e doces, nos seus pontos mais distantes da média que os separa ou une. De igual maneira me agrada este mesmo ponto que é o terceiro, e que se situa, se houvesse maneira de medir o gosto, numa região equidistante entre o amargo e o doce. Penso que seria um "tripolo", aparentemente uma definição para isentar-se do esforço de compartimentar tantas outras nuances em arquivos da memória do paladar e dar a elas espaço e nome, como entidades significativas e queridas. Este arquivamento ocorre por si só, sem a vontade tomar parte na decisão de fazê-lo ou não; já o acessar, o abrir a gaveta e ir "olhar" lá dentro, ou melhor, degustar com a língua invisível que lambe e quer procurar, num processo de desafio que somente ela compreende, estafa este músculo mental de movimentos voluntários. De maneira preguiçosa procura superficialmente o nome daquele gostinho e, logo não achando, vai para um que se compare com o tal, e que sirva, mais ou menos, para uma definição requerida. "Parece frango", dizem línguas ancestrais.
O ato de arquivar e acessar esgota e combina bem com a ideia do amargo do café - sim, o objetivo líquido - de quem só peço um aroma bom e que desempenhe seu papel: despertar. Que o amargo dissipe o mal por subjugação, por ser fisicamente mais impactante que um torpor, por exemplo, e provoque como que uma dor maior do que o incômodo da indolência; que o doce inunde mais os sentidos do que uma ilusão qualquer que se queira ter ou simplesmente se tenha por, mesmo que fantástica, ser deliciosa mesmo em sua impossibilidade que aborreceria se pensada. Ah, o terceiro ponto ! Que este último sirva para quando os demais não tiverem serventia.
Me agradam amargos e doces, nos seus pontos mais distantes da média que os separa ou une. De igual maneira me agrada este mesmo ponto que é o terceiro, e que se situa, se houvesse maneira de medir o gosto, numa região equidistante entre o amargo e o doce. Penso que seria um "tripolo", aparentemente uma definição para isentar-se do esforço de compartimentar tantas outras nuances em arquivos da memória do paladar e dar a elas espaço e nome, como entidades significativas e queridas. Este arquivamento ocorre por si só, sem a vontade tomar parte na decisão de fazê-lo ou não; já o acessar, o abrir a gaveta e ir "olhar" lá dentro, ou melhor, degustar com a língua invisível que lambe e quer procurar, num processo de desafio que somente ela compreende, estafa este músculo mental de movimentos voluntários. De maneira preguiçosa procura superficialmente o nome daquele gostinho e, logo não achando, vai para um que se compare com o tal, e que sirva, mais ou menos, para uma definição requerida. "Parece frango", dizem línguas ancestrais.
O ato de arquivar e acessar esgota e combina bem com a ideia do amargo do café - sim, o objetivo líquido - de quem só peço um aroma bom e que desempenhe seu papel: despertar. Que o amargo dissipe o mal por subjugação, por ser fisicamente mais impactante que um torpor, por exemplo, e provoque como que uma dor maior do que o incômodo da indolência; que o doce inunde mais os sentidos do que uma ilusão qualquer que se queira ter ou simplesmente se tenha por, mesmo que fantástica, ser deliciosa mesmo em sua impossibilidade que aborreceria se pensada. Ah, o terceiro ponto ! Que este último sirva para quando os demais não tiverem serventia.
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