Me é deveras interessante a vida alheia que me espanta ouvir dizer do tédio. Se o sinto, me vejo só. Neste caso sei que tanto mais deveria espantar-me, sabendo que, mais atento, hei de encontrar outros em mim. Se caminho ao dever há tudo lá, e não tendo eu dores imediatas, posso ver mais. Vejo a mulher que diariamente atravessa a rua, no mesmo horário, e parece um segundo de tão precisa em seus passos. O cão da lavanderia que me faz sorrir por parecer bobo demais em sua felicidade exagerada. A senhora da condução que, com olhar impossível de disfarçar, se escandaliza das minhas calças curtas. O grupo de colegas que estão sempre a conversar com as mesmas reações. A empolgação da moça que se contém para não explodir na felicidade do seu novo emprego na revenda de peças.
São todos meus, cada um me pertence enquanto personagem da história que meus olhos escrevem. Eles não sabem de mim, sou o figurante de um livro - minha imagem é como que invisível para todos, em virtude do vício de me ver sem querer. Não podem saber, não devem nem suspeitar que enxerto em suas vidas a graça que terá para minha diversão particular.
São meus profetas, me dizem e mostram da vida com a pele queimada, com as sacolas de pimentões malcheirosos, com o olhar de desprezo, com o de arrogância, com a voz agradecida, com a voz quase morta. Posso ver suas vidas pregressas em cada expressão e gesto. Quero que me contem mais, me ensinem.
Tanto mais me interessa o cotidiano, o desafio de ver onde sou cego, e ter sempre a dolorida sensação do sol forçando a contração da pupila após um longo jejum de claridade.
Nada falo, mas se por ser grande e íntimo demais para guardar eu porventura torne verbo, mostra-se o descrédito vindo de outrem, e torno-me nada, choro para dentro por detrás de um sorriso.
Me conhecer é enfadonho, e por essa maldição escrita por mim, me é impossível sentir o mesmo por alguém que eu conheça, mesmo que por décadas.
quinta-feira, março 15, 2012
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