Escaldante a tarde que cai pela cidade e, no entanto, por culpa de um ânimo realmente fraco que me sustenta há tempos, quando me ponho a ler ou escrever, me obrigo a lançar mão do artifício da cafeína quente e amarga, de maneira que o tal gosto que acompanha o agradável aroma com sensação de conforto, me desperte por força de sua natureza mais direta e nua.
Me agradam amargos e doces, nos seus pontos mais distantes da média que os separa ou une. De igual maneira me agrada este mesmo ponto que é o terceiro, e que se situa, se houvesse maneira de medir o gosto, numa região equidistante entre o amargo e o doce. Penso que seria um "tripolo", aparentemente uma definição para isentar-se do esforço de compartimentar tantas outras nuances em arquivos da memória do paladar e dar a elas espaço e nome, como entidades significativas e queridas. Este arquivamento ocorre por si só, sem a vontade tomar parte na decisão de fazê-lo ou não; já o acessar, o abrir a gaveta e ir "olhar" lá dentro, ou melhor, degustar com a língua invisível que lambe e quer procurar, num processo de desafio que somente ela compreende, estafa este músculo mental de movimentos voluntários. De maneira preguiçosa procura superficialmente o nome daquele gostinho e, logo não achando, vai para um que se compare com o tal, e que sirva, mais ou menos, para uma definição requerida. "Parece frango", dizem línguas ancestrais.
O ato de arquivar e acessar esgota e combina bem com a ideia do amargo do café - sim, o objetivo líquido - de quem só peço um aroma bom e que desempenhe seu papel: despertar. Que o amargo dissipe o mal por subjugação, por ser fisicamente mais impactante que um torpor, por exemplo, e provoque como que uma dor maior do que o incômodo da indolência; que o doce inunde mais os sentidos do que uma ilusão qualquer que se queira ter ou simplesmente se tenha por, mesmo que fantástica, ser deliciosa mesmo em sua impossibilidade que aborreceria se pensada. Ah, o terceiro ponto ! Que este último sirva para quando os demais não tiverem serventia.
quarta-feira, fevereiro 15, 2012
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