sexta-feira, novembro 02, 2007

Travesseiro

As vidas deixam suas convenções pelas ruas úmidas por culpa da chuva que caiu nos últimos momentos da tarde. Nelas se vêem ainda, mesmo que não mais lá, as ansiedades, as paixões, os medos e a tênue sensação de serenidade pronta a se desfiar ao primeiro som brusco partido da gente toda renascendo. Há, antes disso, uma janela entreaberta com vozes cuidadosas em seu volume, porém, incontidas no explodir de alguma alegria feita em risos; são talvez jovens voluntariamente insones sentindo a noite como unicamente deles, mas temerosos pelo despertar de outros que então, talvez não com a mesma alegria, reclamariam sua parte na exclusividade. Nota-se em outro além uma figura senil a maldizer a solidão, e esta lhe agravando os pulmões débeis e insistentes em dar culpa a tudo mais que não seja sua imprevidência com outras vidas. Há também um travesseiro trocado por preocupações; um inútil cerrar de pálpebras; uma carência em meio à plenitude; um ócio hostil embalando tragédias; um afago noutra pele indiferente e um afago noutra pele inexistente; um arder sem combustível; um querer sem sinais de direção; uma voz íntima que toma som no silêncio e ensurdece o que com a noite a presenteia. E a tudo isso assiste essa visão flutuante que tateia como uma tímida mão em gesto de procura uma abarrotada escrivaninha sob penumbra sem contorno de objetos, descobrindo o que ela mesma pôs ali, mas que o pó que jaz volátil encobre de inesperado cinza alheio.

6 comentários:

R.C. disse...

"Nota-se em outro além uma figura senil a maldizer a solidão".
Antigamente eu acreditava quando me diziam que solidão é a gente quem faz... hoje eu não sei.
Principalmente quando a gente tem um tanto de preocupações para adormecer, uma carência para mimar e uma infinidade de desejos especiais para dividir... é difícil achar alguém que nos faça desejar realmente dividir os desejos.
É igualzinho ao motivo que você deu para o fato de não se apaixonar...

Ahan. Viagei na maionese também.

Anônimo disse...

adorei o texto! me fez pensar um pouco e até bateu uma tristeza e me senti solitária... ai ai...

Mara faturi disse...

OI POETA,

QUANTA POESIA NESSE SEU TEXTO..."AFAGO EM PELE INDIFERENTE...EM PELE INEXISTENTE";GOSTEI MUITÍSSIMO:)
BELO,BELO,BELO...
BJO

Mariliza Silva disse...

Não sei porque, mas você me lembrou Gabriel Garcia Marques.... Mandou bem!

beijos

Mariliza

Teresa David disse...

Um belo texto intimista que percorre vários caminhos do nosso sentir. Muito Belo.
Bjs
TD

Anônimo disse...

Olá! Escrevi de olhos fechados, dexei meus dedos acarinhar essas teclas, mas não eram meus dedos que falavam, era o coração que os mandava escrever. Amor, amor... um românce meio que LoLiTa o meu... dos 15 aos 18 anos com um homem de agora 38 anos, dá nisso, dor, violência, volúpia e amor.


"(...)Nota-se em outro além uma figura senil a maldizer a solidão, e esta lhe agravando os pulmões débeis e insistentes em dar culpa a tudo mais que não seja sua imprevidência com outras vidas."

É assim que me sinto. ;)

Bjos =**

Débora dos Anjos